A experiência no desenvolvimento de projetos minerais mostra por que a existência de recursos geológicos não basta para garantir a viabilidade econômica de um empreendimento.
Por João Gustavo Morais, fundador e CEO da Ore Minerals
Ao avaliar um projeto de terras raras, tema em destaque no debate sobre minerais críticos, precisamos compreender o potencial geológico e as condições para aproveitá-lo economicamente, ainda mais quando a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos está sendo regulamentada. A pesquisa mineral fornece a base dessa análise, mas o desenvolvimento de um empreendimento depende também do território, com a infraestrutura e a logística que ele oferece, e do acesso à tecnologia e ao financiamento para cada etapa. Esses fatores influenciam as decisões de investimento e a inserção do projeto nas cadeias industriais.
Do Amazonas ao Sul do país
Nossa experiência na mineração começou na região Norte do Brasil, no Amazonas, onde enfrentamos desafios de infraestrutura e logística. Mais tarde, quando nossa equipe geológica apontou o potencial existente na região Sul, passamos a estudar oportunidades em uma área menos conhecida pela atividade mineral. Essa trajetória reforçou minha percepção de que a análise de um projeto precisa considerar as características do recurso mineral e as do território em que ele está localizado.
Da descoberta ao produto industrial
No caso das terras raras, essa análise se estende aos processos necessários para obter produtos que possam atender à indústria. Ter identificado um recurso mineral deixa em aberto as etapas de beneficiamento, separação e refino. Todas exigem conhecimento técnico e investimentos, além de um estudo de viabilidade. Por isso, o planejamento precisa distinguir o que o empreendimento pode desenvolver em cada fase e quais capacidades dependerão de parceiros ou de avanços tecnológicos.
Cooperação para agregar valor no país
Na Ore Minerals, nosso objetivo é ampliar as chances de agregar valor aos recursos minerais dentro do Brasil. Para avançar nessa direção, precisamos examinar o acesso às tecnologias necessárias e as condições econômicas para aplicá-las. A intenção de produzir no país deve ser acompanhada de soluções que permitam sustentar a atividade ao longo do tempo.
Vejo na cooperação entre empresas, governo e instituições de pesquisa um caminho para enfrentar esses desafios. Essa aproximação pode contribuir para testar processos e formar competências, o que ajuda a viabilizar investimentos. O incentivo tecnológico precisa estar conectado às necessidades dos projetos, e o financiamento deve considerar as etapas e os prazos de desenvolvimento mineral e industrial.
Do potencial geológico ao empreendimento
É com essa visão de conjunto que avalio as oportunidades das terras raras no Brasil. O potencial geológico orienta a pesquisa, enquanto as decisões sobre infraestrutura, tecnologia e investimento ajudam a definir como um projeto poderá avançar. Nosso trabalho é aprofundar o conhecimento sobre os projetos e reunir os requisitos que faltam para transformar o que foi identificado em empreendimentos viáveis, com espaço real para a participação da indústria brasileira.